Amigos do Perrengue na Trip, olá! Fora da sequência incrível de Expedições Perrengue na Trip, vou relatar hoje um perrengue que é uma “puta vibe gossstosa, mâno”. Foi em minha última viagem ao estado do Paraná, a pouco mais de 2 semana atrás.
Rumei na semana que antecedia as comemorações de 7 de setembro para o sul. Não foram férias exatamente, mas quem está a fim, se diverte até em velório, né? E este é o meu caso (não fui para um velório, ok?) Retornei ao litoral paranaense com o objetivo de descansar durante 2 dias e conhecer a Ilha de Superaguí. As minhas últimas incursões à este litoral conduziram-me, 100% das vezes à Ilha do Mel. Mas conversando com os locais, eles me atentaram para esta ainda pouco conhecida e bela ilha.
Lá fui eu, numa trip relâmpago, saindo na quarta-feira, podendo retornar na sexta, no sábado ou nunca mais. Fui de carro dividindo o volante com minha caçulinha e companheira das grandes aventuras. Saímos de madrugada e presenciamos um amanhecer empolgante, com cores e texturas que só um belo céu de inverno pode nos proporcionar. Nosso percurso foi tranquilo, demoramos aproximadamente 16h de viagem. Dessas eu devo ter dirigido bem umas 10h. Óbvio que pegamos engarrafamento na terra dos paulista, né meu? Um puta engarrafameinto embassado, viu? Tão engarrafado que decidimos fazer a troca de pilotos no meio do trânsito da marginal Tietê.
Chegamos à nossa base, a cidade de Pontal do Sul já de noite, bem cansados, famintos e com aquela vontade que vocês, leitores fiéis sambem bem qual é: isso mesmo, beber uma cerveja =) Lá fomos nós, comer um podrão (sanduíches comercializados em estabelecimentos não fiscalizados pela vigilância sanitária) e beber uma cervejinha. O fizemos com muito gosto e lá me informei sobre como chegar em Superaguí. Segundo os locais, eu tinha que pegar o ônibus da 6:20 da manhã (PQP!*#!) até a cidade de Paranaguá e rezar / correr para pegar o barco das 9h para a ilha. Uma verdadeira saga se preparava.
6h da manhã eu estou no ponto de ônibus, no meio de uma névoa e frio dos infernos. Dos infernos porque comigo esperavam umas 15 criancinhas polacas, ruivinhas e estremanente agúdas, em idades variadas e todas cheias de disposição. Eu, no meio deste campo de batalha virei o divisor de “lados” daquela troça.
- Daqui pra cá (leia-se daqui = este japonês que vos escreve) só as pessoas do bem!!!!!!
Pronto: eu dividi as forças divinas daquele combate mortal. Era um corre-corre, uma zoeira em minha volta que vencia o volume máximo do ipod. Chegou o ônibus deles e logo em seguida o meu. Entrei no ônibus, meio eletrizado, mas rapidamente desmaiei em sono profundo, como nos ensina o grande lord Homer Simpson. Cheguei em Paranaguá, desci do coletivo igual a um bêbado-mânco e corri pro banheiro, me libertar dos podrões do jantar. (pausa, poupo dos detalhes) Depois corro pro trapiche em busca do barco das 9h para Superguí. Estava dentro do cronograma, mesmo passando um fax pra Chicago, que não estava previsto.

É uma cidade bonitinha...antiguinha essas coisas.
Cheguei ao trapiche, perguntei para uns piratas locais e a surpresa: (Ahá! Achou que a cagada tinha me feito perder o barco?! Errou!!!)
- Superaguí? Só às 13h…
- Tá de sacanagem! – retruquei eu ao velho bucaneiro.
Enfim, porrada dada, é hora de se recompor. Ainda tonto, um pouco sonolento resolvi sentar no banquinho da praça, de fronte ao mar para traçar um plano de atividade para me ocupar na cidade. Eis que o inesperado me acontece:
- Bom dia meu jovem, me permita por favor compartilhar deste banco com você. (e foi sentando…)
antes que eu terminasse o “Claro meu senhor…” ele continua:
- (…) compartilhar o banco e os pensamentos também. (FODEU, pensei eu o mais alto possível. É pastor e eu vou ser exorcizado aqui!)
Aí ele me taca no colo uma revistinha de palavras cruzadas e um caneta Bic azul.
- Rapaz, tá brabo o negócio aí. É bom que você está com a mente descançada e vai interpretar de uma forma diferente.
Eu fiquei bestializado durante alguns segundos… mas isso passa rápido. Já ouviram a expressão “ficar batendo palma pra maluco dançar”? Pois é eu nasci com isso. É um dom natural que tenho e um dia, vou tatuar isso na testa.
- Sério?! Me dá essa bagaça aqui! É hoje que a cobra vai fumar! – e caí dentro das palavras curzadas, como se conhecesse o vovô de longa data.
Aí ele ficou boladíssimo quando eu mandei de placa “CONCÍLIO DE TRENTO”. Saca essas palavras que são base pra 90% das palavras que estão na horizontal? Mandei lá. Chegou num momento que eu empaquei e ele me sugeriu mudar a página e partitr para outra, mas com uma condição: de que eu abrisse o jogo. Tranquilo, comecei as cruzadinhas aloprando, mandando na disposição. Quando empaquei o coroa manda a obra de arte: N-A-N-O-T-E-C-N-O-L-O-G-I-A. Porra! PQP! Ai eu fiquei bege… Mermão, de onde raios o vovô me saca da caixola N-A-N-O-T-E-C-N-O-L-O-G-I-A?! Isso não é do tempo dele não!
Papo vai… papo vem… as cruzadinhas rolando numa química legal. Quando observamos uma moça acender um cigarro. Pronto! Aí o cara virou pastor!
-Olha só como ela fuma com gosto! (até ai eu estava na dúvida entre um “vovô pastor” ou um vovô “moleque-piranha”). Isso ai é coisa do encardido!!!! Porque eu, já estive lá, no limbo. Conheci os limites humanos e o sub-mundo, sei bem como é ser viciado. Já fui alcóolatra, chincheiro, fumava raxixe e o vício que mais sofri para largar foi o cigarro!
A essa altura do campeonato os meus olhos orientais enontravão-se em sua capacidade máxima de amplitude. Meus pensamentos estavam randomicos entre medo, curiosidade e vontade de tirar uma foto do cara, só pra mostrar pra vocês.
“caraca mané… to jogando jogo das cruzadinhas com um vovô pit-bull-boladão e nem sabia…”
E o cara continua:
-Sabe meu jovem, eu já fiz de tudo nessa vida. (lembrei automaticamente do memórias de um ninja loki).
E começa a me contar coisas surreais, com muita desenvoltura e bom nível de arguição, ora poético, ora amarguradas. Começamos com coisas do tipo: “A própria cadeia é uma ótima escola. Lá vivenviamos e observamos a natureza humana em seu estado extremo.” Bolei[2]!
-Porque eu – pausa, suspiro – já fiquei preso durante 12 anos. Passei por várias penitenciárias e presídios psiquiátricos e tenho 18 (DEZOITO) fugas no currículun.
PÁRA! Leitor, coloque-se no meu lugar. Releia o post até aqui, se necessário. Agora diga: O QUE RAIOS VOCÊ RESPONDE?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!? O QUÊ?!
-Caraca!!!! Que irado! 18 vezes! Impressionante! Isso viraria um filme.
Pronto. Acabei de gerar assunto para mais 6h horas de palavras cruzadas. E pior, que já estava esquentando e eu estava doido pra convidar o vovô pra ir buteco. Pois essa prosa toda carecia de uma gasolina, pra melhorar o entendimento. Tô certo ou tô errado? Mas aí, lembrei que dentre todas as perebas que ele teve, o alcoolismo foi uma delas. Droga. Esquece a cachaça.
Vou contar uma das histórias, bem resumida que ele me contou. É mais ou menos assim:
-Você já amou intensamente uma mulher da vida?
-Hein?!
-Já se apaixonou por uma puta, porra!
-Ah, desculpa. Na verdade nunca tive contato (comercial) com uma. (pode zoar… nunca comi puta mesmo, fazer o que?)
Ai ele começa…
Pois é, eu já. Porque eu queria saber como era amar uma mulher assim. Ela é uma mulher, um ser humano e possui uma das profissões mais antigas da história humana. Mas sua ocupação, por questões da sociedade em que vivemos, a classifica como alguma coisa que é diferente. E como fazer isso? (ama-la) Abstrair das feridas, físicas e sociais desta pessoa e ama-la intensamente, com verdade e brilho nos olhos, realizando nela a verdadeira mulher de sua vida.
[rapaz, nessa hora eu estava de boca aberta, b-o-l-a-d-o. Saca sociologia, um cidadão chamado Émile Durkheim?! Pois é... rebola neguinho, rebola!]
Transforma-la em sua amante. Saber que após uma exaustiva jornada de trabalho, ela retorna para casa; tem um fogo verdadeiro para você, e retribui com amor, tão intenso quanto o seu. Mas agora eu te pergunto: como você sai dessa? Você explica que ela faz parte de um experimento social? Que eu só queria saber como é amar uma prostituta barata?! [perceba o quão cruel ele molda seu discurso, para causar a inquietude em mim.] Somente se entregando verdadeiramente a ela e sofrendo junto como se sofre ao término de qualquer relacionamento. A cumplicidade e o amor sincero te proporcionará reflexão, sofrimento, uma profunda fossa e depois da tempestade, o aprendizado.

Esse era o visual que eu tinha durante o papo!
Eu poderia facilmente escrever por kilômetros sobre esta figura que surgiu em minha vida, das suas fugas, das suas aventuras, da sua vida de marujo. Porém, não tenho palavras para descrever o quão grandioso foi ter esta conversa. Falamos sobre muitas coisas, sobre relações humanas, sobre educação (formal e informal) sobre relacionamentos, sobre imagem. Alguns ítens, eu tenho certeza que foi um briefing divino que ele leu e escolheu determinados temas, pra me dar umas porradas, uns “pedala-robinho”, só pra entrar nos eixos.
Resumo da ópera: da mesma forma em que chegou, foi embora. Agradeci a conversa, ele por sua vez também apreciou bastante sobre o que falamos. Entendi como uma aprendizagem, uma relação de soma positiva. Fim dado a esta saga, fui ao buteco e não bebi. Comi dois mistos-quente e adivinha só – começou a chover, muita coisa. Estava eu, uns marujos que ficava chamando de piratas e uns emos, em idade escolar. É isso ai, tem emo em Paranaguá. Gentilmente cedi parte do meu toldo para eles se abrigarem da chuva, vai que a chuva estraga a chapinha da franja, né? Que choradeira…. Uma menina ficou puxando papo comigo e assim passei mais algumas horas mensurando a viabilidade de ir para Superaguí, plano original da aventura. Mas se saísse às 13h só chegaria às 15:30. Só poderia voltar no dia seguinte, às 8h da manhã e com chuva?! Um tremendo programa de índio.
Saí na chuva mesmo, pra conhecer um pouco a cidade, tirar umas fotos e achar um boteco bem tosco pra beber uma pinga e digerir os fatos. Rodei e achei um boteco só. Muito arrumado pro meu gosto. Me serviu uma pinga péssima e cobrou R$4,00!!! Já no auge da raiva, resolvi ir embora, para evitar mais cagadas.

















